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Texto protocolar da cidadania italiana

Todo mundo tem de fazer o seu relato, nénão?

Como já tenho este blog empoeirado, vai por aqui mesmo, em três atos porque tenho tempo livre.

1. A história familiar

Então, foi um ano juntando documentos. Minha mãe, do Brasil, incansável e resiliente, foi buscando um por um, cada documento às vezes apontando direções e vestígios do próximo. Meu trisavô, Vittore Giacometti, chegou no Brasil vindo de Padavena, uma cidadezinha pequena da província de Belluno. A Wikipedia me informa de que hoje existem quatro mil pessoas morando em Padavena. Provavelmente um número tão grande quanto os de Padavenos que imigraram de lá. Vittore atravessou o oceano para ser agricultor no Brasil.

Da vida dele, só sei da papelada. Ele casou cedinho com a Valentina, teve o filho Giovanni, que pelo meio do caminho se tornou João. João se casou com a Agnese e do casamento deles nasceu minha avó e assim por diante. Todos os casamentos cedinho na vida. Vittore teve uma calhambada de filhos e aí morreu. 

O número de filhos vai diminuindo a cada geração e, devagarinho, com um ou dois anos de diferença a cada certidão, os descendentes de Vittore vão casando (ainda cedo) mas um pouquinho mais tarde. Eu, a trineta de Vittore, chego aos 28 e, apesar de imensamente apaixonada por esses dias, sou o recorde de solteirice na minha linhagem. Valentina ficaria feliz ou escandalizada com isso? Nunca vou saber. 

Vittore nasceu europeu, mas tão europeu, que quatro gerações depois serei europeia graças à europeidade dele. 

Ser europeu é colonizador até pelo sangue. Mas é fato que me alivia e me deixa imensamente calma a ideia de não ser mais submetida aos procedimentos de renovação de visto que me despem de humanidade e me atiram para sacríficio aberto de franceses frustrados a cada ano. Quase todo francês é frustado. Agora quando se dá razões para um francês ser frustrado, ele aproveita e, frustradamente, regozija. Ou seja, um francês que teve à sua disposição todo o instituto francês, toda a cultura e educação francesas e acabou trabalhando no guichê de imigração, ele é certamente um francês frustrado com razões para ser frustrado. Ele é um perdedor de merda ou um conformado medíocre. Depois de tudo que passei, generalizo mesmo. Isso não é olho por olho e dente por dente, afinal. Meu achismo de que todo francês no guichê da imigração é um perdedor de merda não o faz perder o emprego ou ser tratado de forma sub-humana por Estados e instituições. Mas o contrário faz. Fez.

Todo mundo sabe que o papel de gente frustrada é reproduzir-se. Todo frustrado sonha em espalhar a sua frustração pelo mundo, multiplicá-la exponencialmente. Sonham, se ainda sonham, com a barrocada universal da ambição e da busca, uma humanidade inteira frustrada atrás de guichês de imigração frustrando imigrantes que ousaram sonhar para além de fronteiras nacionais, um sonho que cada vez mais a Europa não perdoa mesmo.

A menos que seja o sonho dos seus. Vittore sonhou a mesma coisa que eu sonhei, há quatro gerações. Vittore decidiu que seus sonhos não cabiam na pequeníssima Padavena, então entrou em um navio, um navio no século XIX, o apogeu do desconhecido, e mudou radicalmente a vida dele. Não sei se Vittore foi feliz, mas os dez filhos atestam que Vittore e Valentina (1) não tinham tevê (2) nem facebook, então ouso pensar que eles haviam de ter sido um pouco felizes e, pelo que seguiu da família, não muito frustrados. Ou então muito frustrados em espalhar geneticamente a sua frustração, porque cada geração veio ao mundo com ou um ou outro dos dois desejos de Vittore: estar preso à terra, pela agricultura, e atirar-se ao mar, pelo desconhecido do mundo. 

Agnese e depois Geni trabalharam a terra e ficaram na terra, na terra que foi, para Vittore, o desconhecido domesticado, decomposto em lar. Meu pai e eu seguimos o segundo desejo. Ele foi para a cidade grande e eu, para fechar o ciclo, voltei agora para o lugar de onde Vittore escapou. Estou na Itália. 

***


2. Carta para um trisnonô desconhecido.

Caro Vittore,

Sou sua trisneta. Não sei compartlhamos algo em comum, o formato dos dedos ou a cor dos olhos, ou a fome enorme de começar de novo e distante em outro canto, ou se somos completamente irreconhecíveis um no outro. 

Mas a sua vida, Vittore, fez a minha vida possível e, hoje, faz a minha nova vida possível outra vez.

Em vez da grande lista onde a gente assina o nome e o lugar de onde veio, a política migratória, caro Vittore, mudou um pouquinho nesses últimos anos. Apesar de eu ter feito mestrado aqui na Europa e trabalhar na Europa, a única coisa que vai mesmo me dar sossego, é o teu sangue. Transmissão de nacionalidade jus sanguinis. A Europa adora se comparar com a África e dizer que ela respeita o Estado de direito, enquanto a África cultiva "laços de família" (juro!). Mas para a política migratória, mesma coisa. Se eu vir para cá como você veio, Vittore, para trabalhar e buscar uma vida melhor, estou destinada ao jugo dos franceses me humilhando até as vísceras para eu entender que nunca vou ser parte deles, sempre vou ver o resto, a coisa-ruim que é humilhada mas é também a vitrine onde a Europa projeta a sua generosidade, seletiva e implacável, a oportunidade cruel de aceitar a minha submissão. Submissa, calada e profundamente agradecida, eu posso ficar. Se eu exigir minha humanidade, sou deportada para os confins onde a deixei. 

Por causa de você Vittore, vou poder receber meu passaporte italiano e, por causa do passaporte, vou poder ficar por aqui. O país de oportunidades duras, alcançáveis, mas por caminhos difíceis, para onde você foi hoje se parece mais é com a Itália estagnada, corrupta e faminta que você deixou para trás. 

O país que você ajudou a construir, Vittore, trabalhando a terra até que a terra aprendesse a trabalhar e a produzir, foi saqueado brutalmente, mais uma vez. Estamos, eu e você, Vittore, no mesmo barco, mas ele navega em direções opostas. Espero encontrar nessa minha Europa o Mundo Novo para o qual você partiu no Brasil, que lhe esperava tanto quanto você o esperava. E vocês se fizeram, juntos. Quanto a mim, ainda e sempre, não sei. Suspeito muito fortemente de ter encontrado a minha Valentina, mas ao contrário de você, Vittore, não tenho pressa para o papel passado. E definitivamente não terei dez filhos. Quiçás um cachorrinho, Vittore. Vou chamá-lo Vitto. 

Você, trisnonno, é a minha conexão perdida com a Europa. A sua pele é o começo do meu passaporte. Graças à sua jornada pesada, em outubro não vou precisar me despedir do meu emprego nem da pessoa que eu amo. Quando expirar meu visto, nonno, vou ficar por aqui, sem mais data de validade para a minha cidadania, amparada nos seus braços de imigrante econômico, formatados pelo trabalho do campo e pelo corpo da Valentina. 

Nós dois, nonno, cruzamos o mundo buscando por algo. Você encontrou um país onde o futuro era possível. Hoje, na contramão da sua viagem, eu vou encontrando, pouquinho a pouquinho, no seu passado, um novo futuro possível para mim também.

Obrigada.

***

3. Dos fatos

A parte que sempre me cansa. Os fatos, como se eles existissem fora da subjetividade impregnada na retina. 

Mas os fatos.

Cheguei na comune. Aparentemente é de bom-tom manter o nome da comune em segredo. Vou fazer isso para não dificultar a vida da minha assessora. Como aprendi em vídeos do youtube, uma comune é boa para fazer cidadania se e quando você nunca ouviu falar dela antes.

Então, cheguei na comune ontem, depois de uma despedida querida em Amsterdã, onde passei uma noite (só para buscar os documentos e me despedir de novo do meu namorado, depois de ter passado uma semana na Grécia). Cheguei cedinho, às 12:49, e fui direto fazer o meu Codice Fiscale. Saiu em minutos. 

Tudo pronto, vim para casa. Fiz várias cópias de muitas coisas, preenchi vários formulários e hoje de manhã protocolei o pedido de residência e de cidadania. Está faltando o permesso di soggiorno, que vou pedir amanhã pela manhã.

Até agora, ter feito o procedimento com assessora tem se mostrado uma decisão bem acertada. Ela conhece o pessoal todo, tem linha de comunicação direta e, apesar de não estar presente, ligamos no Skype e ela nos auxilia a preencher cada formulário, linha por linha. 

Estou aqui com um casal de brasileiros queridíssimo, que está fazendo o processo correr mais leve e ser regado a boas conversas e vinho melhor ainda. Estamos na casa de família do assistente da nossa assessora, um lugar maravilhoso, amplo, bonito e com piscina. 

Da parte mais ambígua, mas não necessariamente ruim, a família da casa onde estamos está dividindo a casa conosco até essa madrugada, quando eles saem de férias por onze dias. Eu fico no quarto da filha. Ontem ela passou o dia no quarto vendo tevê, então eu fiquei meio circulando pela casa. 

Como boa Itália, todas as instituições públicas têm um horário de atendimento enlouquecedor (abertas das 9 às 12h ou das 10 às 11:30h), então a gente faz o que precisa fazer de manhã e depois tem o dia para organizar e preencher os próximos formulários a ser entregues e aí tempo livre.  Hoje foi o primeiro dia de tempo livre efetivo, como recém cheguei ontem e, apesar de ter conseguido enfiar sei lá como três livros na minha mala de mão de dez quilos (4321, do Paul Auster, Sibutex III, da Despentes e uma coletânea dos poemas e músicas do Leonard Cohen), que é tudo que trouxe para o mês, fiquei entediada até não poder mais. Deixei para experimentar a piscina amanhã, quando a casa estiver mais tranquila (e hoje sou eu a trancada no quarto, para o possível desespero da menina de onze anos que agora é minha companheira de quarto).

Até agora, tudo está fluindo tranquilamente. Os italianos sempre parecem irritados ao falar, mas até agora foram atenciosos. Elogiei a pulseira da mulher que protocolou o meu pedido de cidadania, ela agradeceu e me contou que é uma senhora que as faz artesanalmente. Tirou a pulseira e me deu para eu ver e experimentar, super querida.

Medo de falar que tudo está indo bem, mas vamos lá. Tudo está indo bem. Até agora. Fiquei de ver a season finale de Game of Thrones com o Jurre, de volta em Amsterdã, então tenho pressa. Frio na barriga. Vamos ver o que vai dar.

Comentários

Camila Primieri disse…
Querida Leti,
volta e meia também me pego pensando na loucura desses trisavós e quadra(?)avós que se lançaram ao mar em busca de uma nova vida. Seus descendentes hoje falando desse passado europeu, como se hoje a Europa nos quisesse mais do que naquele tempo. Talvez até nos queira, depois de mil e uma burocracias, protocolos e alguns euros extras pra agilizar o preço. Mas fico pensando nesses jovens que se enfiaram num navio e foram parar literalmente no meio do mato deste lado do Atlântico. Sinto-me grata ao Brasil, ao mesmo tempo que quero fazer o caminho de volta...
Beijos,
Camila.

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