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Rabiscando pedaços dos últimos dias.

Apertou a mão dele como se o aperto fosse alguma forma de confidência. Sim, ainda sente medo do escuro. Mas eles entraram, ainda assim. Não era escuro, de qualquer forma, não existia mais escuro há muito tempo. Por isso era mais fácil ver os monstros todos, todos aqueles que antigamente se escondiam no escuro.

Eram homens.

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Esperei na estação de metrô. Como eu gostava das histórias de pessoas esperando em estações de metrô. Na minha cidade não existia metrô. Então eu lia todas as histórias sobre todas as esperas de metrô e achava tão bonito, tão civilizado, esperar na estação de metrô. 

Hoje sei que é mentira. Ninguém espera na estação de metrô porque precisa pagar o bilhete, que é sempre caro demais, para entrar na estação. As pessoas esperam, quando esperam, e ninguém já se espera, é fora da estação de metrô. Os que não podem esperar pulam as catracas e são esperados por fiscais, que esperam que as pessoas não pulem catracas e paguem o metrô. E que não andem de metrô se não podem pagar. 

Anna Karenina se matou na estação de trem. Meu amigo me contou que as pessoas se matam no metrô no Rio para a empresa pagar uma grana para a família quando eles estão endividados. Mas aí uns se matam com bilhete suicida no bolso, e morrem sem direito à indenização, porque querer morrer não serve nos tribunais. Ninguém se importa se alguém quer morrer pelo superendividamento que é deliberado. Se a pessoa quer se jogar na frente do metrô, não pode se despedir. A última dívida que fica, ao se atirar na frente do metrô, é a despedida.

Existe um livro que conta as histórias das estações de metrô de Paris e de seus nomes, Metronome. Na minha cidade as estações de ônibus não têm sequer nome. Uma vez colocaram televisões dentro dos ônibus da minha cidade. Fiquei feliz, finalmente iam mostrar o trajeto e as pessoas iam poder se deslocar melhor. Que nada, encheram a tevê de comerciais para superendividar mais as pessoas, e continuaram sem avisar ninguém do trajeto. E se elas se matarem, melhor que não seja com despedida.

Aqui, na cidade de agora, que a cada seis meses é uma, que a cada tempo é a mesma cidade global onde eu não sei pertencer, é muito fácil pegar o metrô, porque ele te diz para onde vai. Na minha cidade de antes era na sorte. Parece uma metáfora mal-feita de país: aqui, gostemos ou não, ao menos há um plano para onde se vai. Na minha cidade se vai para qualquer lado, desde que a gente pague a passagem caríssima do ônibus cheio de propaganda que ninguém sabe para onde vai, para as mesmas pessoas. Custe o que custe: eleição, aposentadoria, democracia.

Ontem esperei alguém no metrô, fora da estação. Era alguém do meu país. A gente reclamou tanto, mas tanto dele. E aí quando ele foi embora, fiquei lá parada, na frente da estação de metrô tão avançada, tão civilizada, tão planejada, e fiquei olhando ele subindo as escadas rolantes e fiquei morrendo de inveja de que ele estava voltando para o país que não tem futuro, que em um tempo sem futuro algum para qualquer um de nós, ele ao menos estava seguro de que era hora de voltar para casa. 

Hoje, depois que ele foi, não tenho mais ninguém por quem esperar fora da estação de metrô. E nem para onde ir, apesar de ser tão fácil encontrar as direções. Eu parada, sabendo qual linha chega a qual destino, mas sem, sem destino, sem linha, sem jeito de voltar para casa.


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Preciso escrever porque dor de coração não tem remédio que não seja humilhação pública. Dizem que as cartas de amor são estúpidas os que não leram cartas de desamor.

Todo o mundo me pediu coisas online nos últimos dias. Estou sem força para responder, para dizer desculpa, estou fechada para negócios. Eu tô doendo e não tem cura que não seja o tique-taque continuado e a obrigação maquinal de ir para o trabalho. E quando o relógio badalar três vezes, eu vou ter jurado o teu nome em vão. Que bíblico, que sacro isso de se conhecer e se gostar e se confortar até se apunhalar. Outra vez e outra. Cada fim é menos dramático. A dor é mais seca. Um baque só.  Não exige mais Chico Buarque ou Adele, é só uma dor de quem perdeu o avião para um lugar bonito. Eu já estou acostumada com onde estou, não é um lugar ruim. Ainda não cheguei no lugar bonito para sentir falta dele, mas que saco ter perdido o voo, eu queria, eu queria mesmo ter feito essa viagem contigo. 

Nos últimos seis meses mudei tantas vezes de casa que não tem absolutamente nada que eu não tenha perdido. Perdi até o sentido de casa. E te perder é mais uma dessas coisas, que por um tempo eu vou achar que tu está guardado no fundo de alguma mala, embalado em uma sacola, até me dar conta do que eu na verdade pressinto, tu ficou para trás. Todo mundo sempre fica para trás. Por isso tem de escolher, vai ser tu ou o outro, qual dos dois vai ficar para trás? 

Pensei em ficar, honestamente pensei em ficar. Pensei que felicidade, no fim das contas, fosse tão importante quanto sucesso ou ambição. Obrigada por no cabo de meio ano me provar errada, me provar inicialmente acertada. Estou sozinha no meio de todas as coisas, e tu vai embora e eu vou ficar bem. Sem Adele ou Chico, bem. Escrevendo artigos, coordenando projetos em vários países, confirmando que o passaporte está na mochila para cada viagem para o outro lado do mundo que eu tenho a cada mês. Na alfândega eles vão olhar para a foto e para mim, e vão sempre ver a mesma pessoa. 

Ninguém vai saber de ti. 

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Escrever ajuda, mas não resolve. Dor de estar doída e de estar longe para não poder ir tomar um café e contar da dor, porque a dor é muito egoísta, só amigos próximos podem escutar da dor. A dor é paradoxalmente egoísta, sim, mas não se divide. Somente com melhores amigos. A dor tem uma escuta própria, um humor específico que não pode ser aplicado sem intimidade. A dor dói na frente de todo mundo, mas como aquele prato especial, a gente espera os outros irem embora para repartir só entre os bons amigos. 

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Escrever acalma. Acho que dá para parar de escrever agora. Mas que medo parar de escrever e não ter mais para onde olhar ou o que fazer. Uma pilha de livros embaixo do criado-mudo, que é para agora eu poder ler o que os outros escreveram quando eles estavam desesperados demais para simplesmente não escrever. Escrever é um jeito conturbado de estar em silêncio. É um jeito extremamente loud  de silêncio.  

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