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Almeidinha sai às ruas.

O Almeidinha foi às ruas protestar contra a corrupção. 

No trajeto até a prefeitura, buzinou para três pedestres atravessando na faixa, passou dois semáforos no vermelho e estacionou em vaga de deficiente.

No protesto, como Almeidinha não sabia o que estava fazendo lá, resolveu fiscalizar o protesto dos outros em vez de fazer o seu, gritando vigorosamente "SEM PARTIDO! SEM PARTIDO! SEM PARTIDO!", ou a versão mais elaborada, "O POVO UNIDO NÃO PRECISA DE PARTIDO!", o que é engraçado, porque Almeidinha sempre chamou o povo de burro.

O Almeidinha se irritou, numa hora, de tanto gritar "SEM VIOLÊNCIA" e continuar levando bomba na cara da polícia. Não estava certo. Ele viu na tevê e leu no jornal que os policiais apenas respondiam com bombas depois dos vândalos quebrarem tudo. Ele não tinha visto nada, absolutamente nada, nem vidraça quebrada, nem lixo pegando fogo, e ainda assim, gritando "SEM VIOLÊNCIA", com lágrimas nos olhos vendo as pessoas entregando flores para os policiais, Almeidinha estava sendo bombeado com gás lacrimogênio. Os olhos ardiam, o nariz queimava. Um desses, os que ficavam indignados quando ele gritava "SEM PARTIDO!", respondendo "SEM REAÇA!", o que lhe indignava profundamente, visto que era um cidadão tão progressista que saia às ruas para protestar, foi um desses que lhe atirou vinagre. Os efeitos do gás aliviaram. Mas é que a polícia jamais teria atirado gás em Almeidinha de graça. Isso contraria o que ele tem visto e lido na sua emissora e no seu jornal imparciais, e Almeidinha tem certeza de que isso jamais aconteceria. Os comunistas, que ele não sabe bem quem são e o que querem, é que dizem que sua mídia é parcial. Não pode ser. Eles jamais mentiriam para um cidadão exemplar como ele, Almeidinha. 

Então, recuperado do lacrimogênio, Almeidinha, depois de horas gritando "SEM VIOLÊNCIA!", decidiu tomar o rumo das coisas nas próprias mãos. Chamou seu grupo de amigos e cercou um jovem com uma bandeira do PSOL, espancando-o até não poder mais, sem violência, sem partido, porque ali o povo estava unido. 

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