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Para Francisco.

http://www.parafrancisco.blogspot.com/

Li o livro enquanto aguardava meu vôo de volta pra POA,
uma carioca me entregou um lenço, e uns americanos olharam
estranho pra minha cara inchada,

e pela primeira vez eu passei um vôo inteiro lendo sem ficar
enjoada. Dádiva dos livros comoventes.
(Ou da curta duração do vôo).

Acho que chorei menos pela morte dele que pelo
fato dessa quantidade exígua (exiguíssima!) de amor
que paira pelo mundo ser assim tão desencontrada,
tão brutalmente louca
e descabida.

Não faz nenhum sentido em si, porque o dá
a todo o resto.

E aí vai embora deixando atrás de si
um ventre carregado da metade
do que não se é mais.

Bem, pra não ser hermética:
o livro é Para Francisco, de Cristiana Guerra,
que são cartas dela, grosso modo, para seu filho,
contando do pai, o pai que morreu
dois meses antes dele nascer,
pra que ele saiba quem foi esse pai,

pra que ela saiba quem foi esse pai.

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