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Amá-la

Outra vez esperando o email que não chega, o futuro que não chega, enquanto apressadamente coloca o futuro próximo, o de amanhã, na mala. Muitas calcinhas, um sutiã extra, meias onde couber, três calças, cinco camisetas, um vestido ou dois. Perfeito para vinte dias. Depois, quem sabe.
Tão rápida para fazer malas quanto para desfazer futuros. 
Mais uma vez aquela mala, para aquele lugar. 
A mesma mala que agora já não pode ser a mesma. É mais pesada, mais veemente nos extravios todos por quais passou. 
A mala que sabe que o seu destino é o trânsito. Que somente tem valor enquanto não chega. A mala que, na destinação final, se tornará inútil. 
A mala precisa do movimento para se ver ativa, cheia de si, completa e às vezes até estourando de tanta lembrancinha, vinho, livros, xícaras e passaporte. A mala é o lar do movimento. A mala é o guarda-roupa do futuro, esse que ainda e sempre te escapa.
A de agora é italiana, simbolismo deliberado. Tu a compraste pela esperança da Colômbia. Agora…
Postagens recentes

Tudo o que você queria saber sobre a oitava emenda constitucional irlandesa.

Hoje, entre lágrimas, corro pelas notícias sobre o referendo sobre a Oitava Emenda Constitucional irlandesa. Segundo a enquete de saída das urnas, a sociedade, em massa, repeliu-a. Finalmente.

A pesquisa de opinião de saída das urnas aponta que quase 70% dos irlandeses votaram para repelir a oitava emenda, que barrava o aborto legal no país. Esse número espantou todo o mundo.

O "sim" era esperado, apesar de que na época pós-Trump e pós-Brexit, as hesitações eram muitas. O prognóstico, além disso, era de que "sim" vencesse com ligeira vantagem, liderado pelo voto jovem. Não é o que a nova pesquisa mostrou. Nela, o "sim" foi a resposta de 83% do voto jovem, mas em todas as faixas etárias, inclusive de 50 - 64 anos, o "sim" ganhou.

Esse é um referendo que muda a história da Irlanda.

Mas antes que a gente diga "no Brasil isso nunca aconteceria", queria mostrar rapidamente uma linha do tempo sobre como a questão foi pautada, como avançou e…

Almeidinha em êxtase.

Almeidinha está em êxtase. Afinal, o maior corrupto do Brasil, o dono do título de propriedade mais obtuso da história brasileira vai ao cárcere. JUSTIÇA. Almeidinha comemora. Finalmente a justiça foi feita. Ele pega mais uma cerveja gelada. Sua mão treme de contentamento. Talvez Lula lhe dê uma ereção. Não como a desses viadinhos, que agora sim vai acabar essa palhaçada. Uma ereção pela justiça, pelo Pres, ops, pelo Juiz Moro na sua figura de galã, majestal, imponente, mandando o petralha-mor para a prisão. 
Não sabe nem falar, mas roubar, ah, roubar ele soube bem, vocifera pra si mesmo o Almeidinha. Que o Lula tenha roubado o dinheiro arduamente conquistado pelo Almeidinha lhe transtorna profundamente. E, o que ele não roubou, deu para pobre e preto. A sua afilhada, a Aninha, de uma beleza quase eslava, não conseguiu entrar na universidade pública apesar da escolinha particular e dos cursinhos caros. A culpa é do sapo barbudo, ele pensa, indignado, não fez faculdade e fez delas um …

Assistindo Black Mirror.

Nas últimas décadas, crescemos com um medo danado de que os video-games fossem nos tornar mais propensos à guerra. No fim das contas, as guerras se tornaram mais propensas aos video-games. De uma sala comendo Doritos nos Estados Unidos se matam pessoas no Paquistão com controles remotos engordurados como no quarto de pré-adolescentes. E quando as pessoas morrem, o que sobra delas?

21 gramas, no século XX, foi o peso da alma. Agora ela é medida em gigabytes em episódios de Black Mirror. No século 21, a alma da gente perdeu peso e ganhou memória. 
Já houve o medo de que a alma não tivesse salvação, por isso rezar, submeter-se e resignar-se a deuses e monstros, a deuses monstruosos. Já houve o medo de que a alma da gente ficasse presa em câmeras fotográficas, de que a pessoa indígena não tivesse alma, de que a pessoa branca não tivesse corpo. Agora o medo é ficarmos presos como holograma, DNA reconstruído e traços de API.
O medo atual, é de que a alma, essa que por milênios foi destinad…
Estou em uma sala insípida em Frankfurt. Creme e azul. Na porta, "Polícia Federal" escrito. Na parede, um documento está traduzido em várias línguas dizendo que eles podem te entrevistar e te revistar e te deixar horas parada em uma sala insípida. 
Chorei de raiva, porque há duas semanas e meia me garantiram que eu poderia entrar exatamente com os meus documentos. Agora quando eu falo isso, ou eles ignoram, ou rebatem dizendo que é mentira. Peço para ir ao banheiro. Uma policial me leva. É o primeiro momento em que sinto que estou detida. O banheiro é horrível e a descarga só pode ser acionada de fora, pela policial. Existe um olho-mágico na porta para eles me assistirem mijar. Sinto-me pela primeira vez presa. 
Saio do banheiro, lavo as mãos e o rosto. A mulher é educada e ríspida. Volto a sentar. Agora há uma entrevista em italiano. O cara me pergunta coisas e segue afirmando que eu não posso entrar com o meu visto e vai embora, sem me dizer o que vai acontecer. 
Já são d…

Texto protocolar da cidadania italiana

Todo mundo tem de fazer o seu relato, nénão?
Como já tenho este blog empoeirado, vai por aqui mesmo, em três atos porque tenho tempo livre.
1. A história familiar
Então, foi um ano juntando documentos. Minha mãe, do Brasil, incansável e resiliente, foi buscando um por um, cada documento às vezes apontando direções e vestígios do próximo. Meu trisavô, Vittore Giacometti, chegou no Brasil vindo de Padavena, uma cidadezinha pequena da província de Belluno. A Wikipedia me informa de que hoje existem quatro mil pessoas morando em Padavena. Provavelmente um número tão grande quanto os de Padavenos que imigraram de lá. Vittore atravessou o oceano para ser agricultor no Brasil.
Da vida dele, só sei da papelada. Ele casou cedinho com a Valentina, teve o filho Giovanni, que pelo meio do caminho se tornou João. João se casou com a Agnese e do casamento deles nasceu minha avó e assim por diante. Todos os casamentos cedinho na vida. Vittore teve uma calhambada de filhos e aí morreu. 
O número de f…

Novo plano

Então, depois de tudo dar errado, é hora de política pessoal de redução de danos. No meu último ano, tudo deu errado. Como tudo deu ainda mais errado no lugar de onde vim, não posso falar disso a não ser com amigos íntimos.
Tenho quase trinta anos, um mestrado numa universidade Top 5 no mundo e um contrato de free lancer. Não consigo pagar aluguel. Tenho sublocado ilegalmente lugares por um ano aqui por Amsterdã. Estou cansada e não penso nunca na vida. Não tenho quase nunca conversas longas com amigos, porque nessas conversas a verdade sempre sobre à boca, e não posso pensar na verdade agora.
Estou sem casa e sem perspectiva de casa pela sétima vez em um ano. Vou me mudar para um camping. Posso mentir que é uma escolha, não tem como não descrever como escolha, mas é dessas escolhas de cobertor pequeno, sentir frio nos pés ou no peito. Ainda assim, tem um empoderamento, essa coisa de pegar a vida pelas rédeas, depois de me sentir apenas chacoalhada pelo que é externo a mim por tanto …